IGESIP.
A decisão do presidente do Timor-Leste, José Ramos Horta, de convidar Xanana Gusmão para conformar Governo, impedindo deste jeito o partido mais votado (a FRETILIN, com 29% do sufrágios) aceder ao poder, trouxe inúmeros episódios de violência e distúrbios no pequeno país oceânico.
Se bem nas democracias consolidadas as únicas maiorias que contam são as que determinam as alianças pós-eleitorais, é lógico acreditar que num país tão heterogéneo e fragmentado como o Timor-Leste, onde cada quota de poder por pequena que for é um sucesso, ninguém aceita de bom grau ver-se fora de um governo que tinha ao alcance da mão.
Foi isso que lhe aconteceu à Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente —por certo, antigo partido de Ramos Horta e em cujas filas militava ainda em 1996, quando ganhou o Prémio Nobel da Paz—. A FRETILIN está ligada de forma indissociável à história recente do país, pois desde a invasão indonésia em 1975 monopolizou a resistência timorense, tanto no que diz respeito da representação perante as Nações Unidas quanto nas acções militares contra os ocupantes.
As divisões internas custaram caro à FRETILIN, da que históricos líderes na luta pela independência passaram para formações como o Partido Social Democrata. O facto de o histórico líder do partido —e da independência!— Xanana Gusmão, estar disposto a apoiar Ramos Horta deixando fora a Frente, deixa bem às claras qual a confusa e tensa situação que se vive.
Não falta na pequena nação oceânica quem equipare o encontro entre Gusmão e Ramos Horta com a visita de Kissingir e Ford a Jakarta que pouco menos que 'abençoava' a intervenção indonésia na ilha.
Menos extremista mas igual de indignado se reconhece Mari Alkatiri, ex primeiro-ministro actual responsável pela FRETILIN, a decisão constitui «um golpe de Estado». Se bem a expressão é demasiado forte, o certo é que tem razão para sentir-se incomodado. Já não apenas se trata de ficar fora do Governo apesar de ter logrado a maior parte dos sufrágios, mas da 'casualidade' de se ter invertido a situação de há escassamente um ano. Naquela altura, Xanana Gusmão era o presidente da República e Ramos Horta o primeiro-ministro —juntamente com Alkatiri—. Agora, o histórico guerrilheiro é o primeiro-ministro e Ramos Horta o presidente... mas Alkatiri fora-de-jogo.
Evidencia-se, mais uma vez, que afastado o perigo do 'ominoso inimigo' (Indonésia), o pior adversário acaba encontrando-se entre os aliados, mais ou menos como aquilo de «contra Franco vivíamos melhor». Parecem longe, com certeza, aqueles tempos de saudosa unidade magnificamente reflectidos pelo cantautor e músico Pedro Ayres de Magalhães—um dos fundadores dos Madredeus— na canção/poema Timor, e que dizem assim:
Andam lá sem descansar
Nas montanhas a lutar
Iluminam todo o mar
De Timor
Nas montanhas sem dormir
Uma luz a resistir
Arde sem se apagar
Em Timor
Andorinha de asa negra
Se o teu voo lá passar
Faz chegar um grande abraço
Dá saudades a Timor
Eles não podem escrever
Porque vão a combater
Vão de manhã defender
A Timor
As crianças a chorar
Não as posso consolar
Que eu nunca cheguei a ver
A Timor
Andorinha de asa negra
Vem ouvir o meu cantar
Ai que dor rasga o meu peito
Sem notícias de Timor
Nunca mais hei-de voltar
Já não posso lá voltar
À idade de lembrar
A Timor
Gerardo Uz, Núcleo de Estudos Mediáticos do IGESIP
09/08/2007