IGESIP.
Parece ser que, desde sempre, o ser humano vive cercado de conflitos. Não somente dos seus internos que, a dia de hoje, parecem cada vez mais patentes, mas daqueles externos, sanguinários, destrutivos. A guerra, considerada quer positiva quer negativamente, sempre esteve presente nas suas relações e refletir, falar, escrever sobre ela é tão antigo quanto a própria habilidade humana de fixar graficamente os pensamentos.
Depois de petroglifos e esculturas que os povos antigos deixaram na terra ou, avançando na faculdade da escrita, os antigos textos que tanto orientais (como Lao Tzu, Confúcio, Wu Ch’I e Sun Tzu), mesopotâmicos ou até mesmo os ocidentais, nos tempos modernos, foi o célebre general alemão Clausewitz quem, após o pacifismo de Kant, reverteu o pensamento recorrente e instou que a guerra era um ato consciente, era nada mais do que “uma continuação da política por outros meios”, um simples ato de violência com a função de obrigar o adversário a realizar nossos desejos, um calculado instrumento para lograr objetivos bem determinados e, claro está, absolutamente racionais.
Ainda que se siga pensando desta maneira (salvo novos matizes que as sucessivas – e intermináveis – guerras foram aos poucos acrescentando), em alguns casos não resulta fácil crer e encarar esta realidade pensando-se em uma guerra fratricida, racionalizada por ambos os lados, como foi o caso da Guerra Civil Espanhola.
Não cabe discutir aqui os possíveis motivos e estratégias que este conflito possa ter gerado, contudo talvez seja pertinente pensar em certas conseqüências, que somente o tempo tem o poder de apagar, mas cujo desaparecimento leva consigo uma série de histórias, de sentimentos, de verdades esquecidas, deturpadas, machucadas.
E neste sentido, talvez, sim, seja pertinente compreender não só o papel, mas o lugar que certas representações, como a literatura, por exemplo, possam ter exercido para o questionamento, a ‘redenção’, a expurgação de um passado de dor, tristeza e absurdo.
Ainda que no caso castelhano não se note uma interrupção tão brusca (saiba-se, por exemplo, que Una Isla en el Mar Rojo, de Wenceslao Fernández Flórez, mesmo que com um direcionamento nitidamente não-republicano, foi escrita em 1939), é importante ter em conta que após o fratricídio que supôs a guerra civil espanhola, a coletividade nacional galega e outros povos do estado espanhol foram submetidos a um processo de reversão no qual grande parte das suas vivencias e sentimentos foram convertidos numa espécie de tabu, anulando quase que irreversivelmente uma parte significativa tanto do próprio individuo como da sua vida comunitária e, indo mais além, da vida da sua terra.
De fato, a Guerra Civil e os anos de franquismo, além de, no caso galego, a conseqüente decadência do movimento galeguista e o exílio fizeram diminuir o grau de participação de galegos na vida pública, algo que se refletiu claramente na literatura, já que (e não falemos da problemática da narrativa galega em solo peninsular) a primeira obra a falar sobre o tema, e em primeira pessoa, Non agardei por ninguén, de Ramón de Valenzuela, foi publicada em 1957, dezoito anos depois do fim da guerra e, claro, em terras argentinas.
E pode-se dizer que, tanto as primeiras narrativas galegas como as espanholas de pós-guerra se constituem como depoimentos, confissões ou até mesmo como um elemento catártico, muitas vezes com um tom de libertação daquele passado vivido ou conhecido, em muitos casos falado desde a distância, desde o entre-lugar, através destes seres em um “estado de ser descontínuo”, como diria Said: os exilados.
Neste sentido, o exílio constitui-se a plataforma desde a que, ainda que, diga-se, alguns anos passados, os literatos puderam (ou quiseram) dar voz a um discurso dorido e aprisionado. Fizeram desta forma Valenzuela, Max Aub, ou até mesmo, ainda que sob uma perspectiva distinta, José Blanco-Amor, exilado antes da guerra, mas consciente dela, através dos que ali estavam.
De todas as formas, até que os ânimos políticos espanhóis fossem se acalmando nos fins da década de 80, a produção sobre este tema, ainda tabu, ainda que tão vivo nas mentes e nas carnes de tantos que nos montes combateram, foi relativamente reduzida e, se não autobiográfica, com caracteres similares.
Talvez tenha sido a suposta calmaria política, ou, quem sabe, a iminente realidade de que os anos passam e de que já dentro de pouco não haveria mais quem contasse as verdadeiras histórias (não as dos livros, não as dos jornais, sempre tão dedicados a mostrar uma mesma visão, mas a das gentes, de diversas ideologias, quando não sem elas; de diversos lugares e famílias; de diversas saudades…) que tenha feito com que, principalmente a finais dos anos 80 e mais bem início dos noventa, netos e filhos da geração da guerra, conhecedores dum passado nebuloso já tão distante, desconhecedores do calor e do cheiro da pólvora que explodira naqueles fuzis, resolvessem sair a campo a desvendar este tempo.
De aí, várias produções, tanto no âmbito espanhol, como é o caso peculiar de La voz dormida, de Dulce Chacón, que narra especialmente a perspectiva feminina da guerra civil; como no âmbito galego, surgiram e se consolidaram no espaço (e no mercado) literário, como Os mortos daquel verán, de Carlos Casares, Agosto do 36, de Fernández Ferreiro, Entre fronteiras, de Xabier Alcalá ou até mesmo, mais recentemente, o cinematografado (e não tão bem sucedido) O lápis do carpinteiro, de Manuel Rivas, todos eles já não biográficos, senão “pós-memorísticos”, frutos de pesquisas, entrevistas, vivências alheias de uma guerra que, de omitida (isso sim, jamais esquecida), corria o risco condenar para o eterno aquelas pessoas que, desde outros bandos, buscavam fazer a sua justiça…
E hoje, 71 anos depois do seu início, com centenas de gente maior à beira da morte, à beira do passado irrecuperável, olvidado, não é só a literatura (quem, verdade seja dita, deu um passo adiante neste processo de resgate da história) a que busca salvaguardar os resquícios desta memória, mas todo um corpo institucional e político, tentando encontrar uma maneira – tardia? – de redimir de uma culpa falsa e injusta os que perderam (ou quase) a vida, os familiares, a história. Redimir para comemorar. Ou comemorar para redimir (-se)?
10/07/2007